Vivo angustiada. A velocidade da minha vida não é o bastante para aplacar essa angústia eterna. Trabalho e quero fazer outra coisa, escrevo e apago, começo a pensar e logo mudo a direção.

Parece que estou perdendo tempo. Para onde foi aquela menina que tinha certeza de seu talento? Agora só penso em conseguir uma posição confortável para atingir meus sonhos – onde nunca estou confortável, do jeito que gosto – mas não penso mais em criar coisas novas, não sinto mobilidade. Parece que estou presa nas cordas do sistema, vendo tanta gente fazendo tanta coisa, sem conseguir fazer nada do que quero.

Mas o que eu quero?

Sábado, finalmente, fiz minha primeira tattoo! Depois de quatro anos tentando, pensando em como seria, finalmente consegui juntar a grana, falar com o Tinico, e fazer a bendita. E ficou linda. E significa ainda mais do que eu tinha previsto.

Pode parecer exagerado, mas me sinto outra depois dela. Pode ser pela sensação de fazer algo permanente pela primeira vez na vida. Pode ser pela adrenalina de fazer algo permanente e depois me arrepender. Mas na verdade sinto que ela já faz parte de mim, e me sinto mais eu. Parece uma reafirmação de independência tardia.

Cheguei aos 25 e a corrida contra o tempo para alcançar os objetivos que tracei aos 18, por aí, começou. E com esforço, reverti o quadro de desemprego e dívidas do começo do ano e conquistei duas das três metas: fazer a tattoo e sair do Brasil pela primeira vez. Tudo bem que é Buenos Aires, mas só de pisar em terras estrangeiras, na companhia de bons amigos, já dá aquela alegria. Agora só falta sair de casa.

Enfim, parece que novos ares estão soprando e finalmente injetei a mobilidade que minha vida precisava. Essa tatuagem é um símbolo permanente de que não devo mais idealizar e esperar consentimentos ou qualquer coisa do tipo. Devo pensar, planejar, poupar e fazer.

Daqui em diante vai ser assim.

Hoje foi um dia emblemático. A primeira morte que eu, meus irmãos e meus amigos sentimos de perto, a primeira de alguém da nossa geração. E que ainda aconteceu com alguém tão bom quanto o Daniel.

Pensei em postar isso no facebook com alguma foto do fotolog, mas fuçar as fotos antigas me fez ver que, primeiramente, é muito bom viver em épocas nas quais podemos retratar o dia a dia dessa forma digital. Pude ver o passado e relembrar tudo. E a outra coisa foi ver que eu não sinto falta apenas do Daniel, mas de todos os que fizeram parte dessa minha vida, em geral mesmo. As coisas passaram, foram intensas e muito boas. Eu já não era mais próxima do Daniel há tempos, mas isso também se aplica a ele. E o fato de todos escreverem para ele dizendo que ele fez parte de uma fase maravilhosa de suas vidas só explica o quão especial ele era e o quanto sua vida valeu a pena.

Por mais clichê que seja, esses acontecimentos mostram como a vida passa e como ela é maravilhosa. A minha foi, a dele com certeza também.

Aonde quer que esteja, saiba que nossa amizade foi muito importante para mim, e eu espero que você esteja muito bem.

Durante uma coletiva de imprensa, o governador estava atarefado. Apressado e sem tempo para nada, de repente ouviu um pedido:

- Sr. governador, por favor, desenha um hipopótamo pra mim?

Ele estranhou. Como assim, um homem tão sério receber um pedido tão sem cabimento? Onde já se viu governador desenhar hipopótamo?

Foi então que parou para pensar e percebeu que não sabia desenhar um hipopótamo. Por isso mesmo, aceitou o desafio.

Pegou a folha de papel meio sem jeito, empunhou sua mont-blanc ainda mais sem jeito e rabiscou a folha. – Não sei desenhar hipopótamo –, disse, sério, ao rapaz que fez o pedido inusitado.

Entregou o papel ao jovem, que foi embora feliz com o rabisco que deveria ser um hipopótamo. Mas o governador não conseguiu esquecer aquele acontecimento improvável.

Voltou para casa. Tentou se concentrar em suas tarefas, mas de tempo em tempo pensava no ocorrido. “Como assim, desenhar hipopótamo? Um governador, como eu, desenhando hipopótamo. Humpf”. Mesmo desdenhando o fato, algo o incomodava. Ele realmente não sabia desenhar.

Sentou-se em sua escrivaninha de mogno e pôs-se a desenhar. Desenhou sem parar. Rabiscava e jogava a folha no lixo. “Não, isso não é um hipopótamo”. Passou a noite em claro. Ele tinha um cargo tão importante, era um homem tão sério. Era um governador. Mas seus hipopótamos insistiam em sair parecidos com balões de criança.

Mais uma que estava no meu caderno… e ainda não encontrei o que procurava. Mas essa não é minha, é do Bocage:

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

Entre uma folha e a outra você está bem. E no meio destas, está mal. De uma hora para a outra, tudo o que é concreto desmorona, e você volta a ser o que era antes. Só que mais forte.

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Estava procurando uma coisa no meu caderninho de ideias e encontrei esses versos. Acho que estava pensando sobre o processo de leitura, mas acho que fiz uma analogia com relacionamentos… ou copiei de algum livro. Não sei. Mas gostei. É sempre bom ter um desses caderninhos pra rascunhar uma ideia e, depois de um tempo, se deparar com o que escreveu e ter uma surpresa.

Eu já escrevi minha história nesta cidade.

Vários cantos dela contam a minha vida. Como aquele bar, onde partiram meu coração, e aquele outro, onde conheci um novo amor.

O hospital em que minha tia morreu, que por coincidência fica em frente ao velório onde ficou meu avô, em um tempo que não consigo me lembrar… meu pai que me contou outro dia.

Eu já escrevi minha história nesta cidade.

Andando pela Paulista lembro de diversos momentos… risadas com amigos, com desconhecidos, noites de frio em que jurei que nunca mais passaria a madrugada na rua e outras em que tudo o que eu queria naquele momento era estar ali, na rua, com uma bebida e uma amiga ao lado. O bar em que levei tantos meninos, sempre o mesmo bar. Só não levei ele. Talvez porque ele fosse mais importante, ou, simplesmente, porque nunca tínhamos tempo para nada.

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Achei esse texto perdido no meu email, ele é de 2009.

Me impressiona como escrever é um ato de coragem. Nem tanto por despir quem escreve, mas por te fazer assumir a merda que pode sair de seus dedos.

Quando o texto sai bom, ótimo. Mas quando é ruim…

Ah, quando é ruim. Pior, quando é medíocre. É um espelho que destroça a alma do escritor. Mas o que se pode fazer? Uma vez que se toma a decisão de iniciar um texto, não há como voltar atrás. Você pode não publicá-lo, pode deletá-lo, mas o processo já começou e vai terminar, basta, ao escritor, encadear as ideias.

Por isso escrevo tanto sobre o ato de escrever. É fascinante. É mostrar-se ao mundo de uma forma muito íntima, de uma forma que só você conhece. Porque escrever é um ato solitário. É uma conversa sua consigo mesmo mas que deve ser traduzida para que os outros possam entender.

Escrever é para os fortes.

Estou sentindo cheiro de chuva no ar.

Parece que a mesma eletricidade que invade a atmosfera antes de uma tempestade aparece quando algo esta prestes a acontecer.

E, pelo que estou sentindo, a coisa vai ser boa!

Quanta aposta há numa só noite?

Quanta esperança de que seja “a” noite, aquela que vai mudar sua vida?

E quanta esperança em vão, de nada vai mudar? Tudo muda à noite.

A noite inspira mais que o dia, pois é quando todos nos arrumamos e tentamos dar o melhor de si. Ou o pior de si. É quando nos entregamos por completo ou, em casos, quando colocamos nossas melhores máscaras.

A noite inspira poetas pois é nela que as pessoas depositam todas suas esperanças amorosas. A noite transpira amor.

Transpira desejo, também. Se pudéssemos extrair um pedaço da noite, veríamos que ela é constituída de todos os desejos do mundo, condensados.

À noite é quando sonhamos, acordados ou adormecidos.

Doce ou amarga, não importa. O importante é que tem sabor.

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