Durante uma coletiva de imprensa, o governador estava atarefado. Apressado e sem tempo para nada, de repente ouviu um pedido:

- Sr. governador, por favor, desenha um hipopótamo pra mim?

Ele estranhou. Como assim, um homem tão sério como ele receber um pedido tão sem cabimento? Onde já se viu governador desenhar hipopótamo?

Foi então que parou para pensar e percebeu que não sabia desenhar um hipopótamo. Por isso mesmo, aceitou o desafio.

Pegou a folha de papel meio sem jeito, empunhou sua mont-blanc ainda mais sem jeito e rabiscou a folha. – Não sei desenhar hipopótamo –, disse, sério, ao rapaz que fez o pedido inusitado.

Entregou o papel ao jovem, que foi embora feliz com o rabisco que deveria ser um hipopótamo. Mas o governador não conseguiu esquecer aquele acontecimento improvável.

Voltou para casa. Tentou se concentrar em suas tarefas, mas de tempo em tempo pensava no ocorrido. “Como assim, desenhar hipopótamo? Um governador, como eu, desenhando hipopótamo. Humpf”. Mesmo desdenhando o fato, algo o incomodava. Ele realmente não sabia desenhar.

Sentou-se em sua escrivaninha de mogno e pôs-se a desenhar. Desenhou sem parar. Rabiscava e jogava a folha no lixo. “Não, isso não é um hipopótamo”. Passou a noite em claro. Ele tinha um cargo tão importante, era um homem tão sério. Era um governador. Mas seus hipopótamos insistiam em sair parecidos com balões de criança.

Mais uma que estava no meu caderno… e ainda não encontrei o que procurava. Mas essa não é minha, é do Bocage:

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

Entre uma folha e a outra você está bem. E no meio destas, está mal. De uma hora para a outra, tudo o que é concreto desmorona, e você volta a ser o que era antes. Só que mais forte.

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Estava procurando uma coisa no meu caderninho de ideias e encontrei esses versos. Acho que estava pensando sobre o processo de leitura, mas acho que fiz uma analogia com relacionamentos… ou copiei de algum livro. Não sei. Mas gostei. É sempre bom ter um desses caderninhos pra rascunhar uma ideia e, depois de um tempo, se deparar com o que escreveu e ter uma surpresa.

Eu já escrevi minha história nesta cidade.

Vários cantos dela contam a minha vida. Como aquele bar, em que Gabriel partiu meu coração, e aquele outro, onde conheci Jorge.

O hospital em que minha tia morreu, que por coincidência fica em frente ao velório onde ficou meu avô, em um tempo que não consigo me lembrar… meu pai que me contou outro dia.

Eu já escrevi minha história nesta cidade.

Andando pela Paulista lembro de diversos momentos… risadas com amigos, com desconhecidos, noites de frio em que jurei que nunca mais passaria a madrugada na rua e outras em que tudo o que eu queria naquele momento era estar ali, na rua, com uma bebida e uma amiga ao lado. O bar em que levei tantos meninos, sempre o mesmo bar. Só não levei ele. Talvez porque ele fosse mais importante, ou, simplesmente, porque nunca tínhamos tempo para nada.

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Achei esse texto perdido no meu email, ele é de 2009.

Me impressiona como escrever é um ato de coragem. Nem tanto por despir quem escreve, mas por te fazer assumir a merda que pode sair de seus dedos.

Quando o texto sai bom, ótimo. Mas quando é ruim…

Ah, quando é ruim. Pior, quando é medíocre. É um espelho que destroça a alma do escritor. Mas o que se pode fazer? Uma vez que se toma a decisão de iniciar um texto, não há como voltar atrás. Você pode não publicá-lo, pode deletá-lo, mas o processo já começou e vai terminar, basta, ao escritor, encadear as ideias.

Por isso escrevo tanto sobre o ato de escrever. É fascinante. É mostrar-se ao mundo de uma forma muito íntima, de uma forma que só você conhece. Porque escrever é um ato solitário. É uma conversa sua consigo mesmo mas que deve ser traduzida para que os outros possam entender.

Escrever é para os fortes.

Estou sentindo cheiro de chuva no ar.

Parece que a mesma eletricidade que invade a atmosfera antes de uma tempestade aparece quando algo esta prestes a acontecer.

E, pelo que estou sentindo, a coisa vai ser boa!

Quanta aposta há numa só noite?

Quanta esperança de que seja “a” noite, aquela que vai mudar sua vida?

E quanta esperança em vão, de nada vai mudar? Tudo muda à noite.

A noite inspira mais que o dia, pois é quando todos nos arrumamos e tentamos dar o melhor de si. Ou o pior de si. É quando nos entregamos por completo ou, em casos, quando colocamos nossas melhores máscaras.

A noite inspira poetas pois é nela que as pessoas depositam todas suas esperanças amorosas. A noite transpira amor.

Transpira desejo, também. Se pudéssemos extrair um pedaço da noite, veríamos que ela é constituída de todos os desejos do mundo, condensados.

À noite é quando sonhamos, acordados ou adormecidos.

Doce ou amarga, não importa. O importante é que tem sabor.

Dia desses, uma coisa das mais estranhas me aconteceu. Fui dormir com um homem, mas juro que, quando acordei, o que encontrei ao meu lado foi um rato.

Nada mais lembrava o homem que ele costumava ser. No lugar da pele, pelos cinzentos. O sorriso cativante tinha sido substituído por dentes amarelados e um bigode asqueroso. Mas não era isso o que mais me incomodava. Mais repugnante que o gigantesco rabo e toda aquela imundície, eram os olhos medrosos e assustados.

Será que ele tinha mudado durante a noite? Ou será que ele sempre tinha sido assim, e eu é que não havia percebido?

Sair às 18h e ainda pegar o Sol, porque é horário de verão.

Descalçar os sapatos ao chegar em casa.

Finais de semana, férias e feriados.

A rotina opressora do trabalho parece um jogo masoquista que a sociedade impõe ao indivíduo, para que este consiga apreciar a verdadeira beleza que se esconde em todas as coisas.

Queria me transformar em poeira cor-de-rosa, e que então o vento me espalhasse por todos os lugares. Não sentir nem pensar: apenas ser. Metamorfosear-me numa explosão de delicadeza.

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