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A rotina é um bicho traiçoeiro que aos poucos vai entrando e devorando sua vida. Sua e das pessoas que te circundam. Ela devora os olhos também, pois, uma vez dentro de você, impede que as outras coisas sejam vistas. Tudo conspira para que um dia seja semelhante ao outro, tirando uma ou duas coisas diferentes.

E quando se tenta nadar contra a maré, logo se é convencido de que não é possível. “Utópico”, dirão os defensores mais ferrenhos deste modo de vida. Aqueles mesmos que dia após dia dizem que precisam mudar de vida, que precisam sair do vermelho, mas não experimentam nada de novo porque estão “poupando” para o amanhã.

Mas que amanhã? A única certeza que se tem é a de que amanhã eles vão levantar e fazer tudo de novo. Até as reclamações serão as mesmas. Assim, eles podem adiar para sempre o dia em que vão mudar de vida.

E não adianta tentar correr; um dia ela chega e te enquadrada. Está tudo bem arquitetado para que você não consiga sair dela. Se você tem tempo, o outro não tem. E assim a vida segue.

Até o novo vai se acomodando à sua forma, como aquele sofá velho. E não adianta lutar: são muitas pessoas jogando no outro time.

Acorda e faz tudo de novo.

Acorda e faz tudo de novo.

De novo e de novo.

Mais um dia sem nada de novo.

Cláudio Antenor pegou seu cafezinho, jogou conversa fora no corredor e sentou-se na frente de seu computador, como sempre. E, como sempre, abriu sua aba de favoritos e começou a visitar os sites em buscas das atualizações do dia. Passado um, dois, três sites ou mais, percebeu algo estarrecedor, que nunca havia percebido antes:

- Puta que o pariu, eu só tenho site de bundão.

O que havia acontecido na vida de Cláudio? Por que havia se interessado por esses sites sem nunca ter percebido isto?

Desesperado, Cláudio começou a analisar sua vida. Ele, um cara que sempre se julgara descolado, de repente se deparava com uma realidade que não podia ser calada. Todos os sites que gostava, eram de bundão.

Quando foi que ele tinha mudado? Como poderia ter achado aquele texto mela cueca algo tão profundo? E aquele outro de piada? Meus deus, as piadas eram tão óbvias que agora Cláudio corava só de lembrar das coisas que havia indicado aos amigos.

Lembrou-se então que outro dia mesmo tinha dado risada de um Power Point que encaminharam para ele na firma.

Cláudio suava, estava desesperado. Percebeu que algo de muito errado havia acontecido. Desnorteado, fechou o Explorer e desligou o computador. Caminhou firme e velozmente para fora do escritório, tentando esconder o nervosismo. Afrouxou a gravata. Apoiou as mãos nos joelhos e respirou fundo.

Neste momento, Claudinho, como era conhecido, decidiu que iria mudar de perfil, drasticamente.

Fez uma tatuagem. Voltou a fumar. Comprou uma moto e trocou de namorada.

Todos começaram a comentar o novo estilo do rapaz. Como Claudinho havia ficado descolado, como os links dele eram os mais legais.

Mas, de tempos em tempos, percebia, com uma certa agonia, uma abinha aberta no seu Chrome. E ali morava a verdade que não queria calar. Nela, estava escrito: Kibeloco.

Algo muito recorrente na vida de muitas pessoas que as impedem de fazer o que desejam anda me assombrando: o medo de falhar.

Não de falhar na vida, socialmente ou algo assim. Disso eu não tenho medo, tanto é que costumo me jogar e prefiro quebrar a cara a não fazer (óbvio que em certos níveis).

O medo que tem me assombrado é o de falhar em algo que eu julgo ser boa, que é escrever. Escrevo ideias e ideias em um caderno e não as executo; viro a folha. Parece que as ideias não são boas o bastante para aquilo que eu quero fazer. Parece que eu estou desperdiçando munição. Cada vírgula, cada palavra… às vezes me vem o sentimento de quem nem vale a pena levar a ideia a diante. E eu desisto sem tentar…

Ruim, não?! Meus personagens parecem não querer ganhar vida, só consigo escrever isso aqui, coisas sobre mim ou pequenos pensamentos, as histórias com vidas que eu mesma inventei nunca vêm a tona…

Pelo menos esse medo só se aplica a arte, não à vida. Não é como o daquelas pessoas que preferem ficar em casa pensando no que as aguarda ao invés de viver o presente. Aquelas que, ao invés de serem impedidas por seus personagens – como eu -, preferem pensar que são personagens de uma história que, às vezes, nunca virá a acontecer.

Durante uma coletiva de imprensa, o governador estava atarefado. Apressado e sem tempo para nada, de repente ouviu um pedido:

- Sr. governador, por favor, desenha um hipopótamo pra mim?

Ele estranhou. Como assim, um homem tão sério como ele receber um pedido assim tão sem cabimento? Onde já se viu governador desenhar hipopótamo?

Foi então que parou para pensar e percebeu que não sabia desenhar um hipopótamo. Por isso mesmo, aceitou o desafio.

Pegou a folha de papel meio sem jeito, empunhou sua mont-blanc ainda mais sem jeito e rabiscou na folha. – Não sei desenhar um hipopótamo –, disse, sério, ao rapaz que fez o pedido inusitado.

Entregou o papel ao jovem, que foi embora feliz com o rabisco que deveria ser um hipopótamo. Mas o governador não conseguiu esquecer aquele acontecimento improvável.

Voltou para casa. Tentou se concentrar em suas tarefas, mas de tempo em tempo pensava no ocorrido. “Como assim, fazer um hipopótamo? Um governador, como eu, desenhando hipopótamo. Humpf”. Mesmo desdenhando o fato, algo o incomodava. Ele realmente não sabia desenhar.

Sentou-se em sua escrivaninha de mogno e pôs-se a desenhar. Desenhou sem parar. Rabiscava e jogava a folha no lixo. “Não, isso não é um hipopótamo”. Passou a noite em claro. Ele tinha um cargo tão importante, era um homem tão sério. Era um governador. Mas seus hipopótamos insistiam em sair parecidos com dois balões de criança.

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O que inspirou esse post foi o desenho de um hipopótamo que Geraldo Alckmin fez para o blog http://hipopotamozine.blogspot.com/

É chegada a hora da edição. Frases inteiras somem, palavras são substituídas, parágrafos mudam de lugar. O texto vai tomando forma. Ainda não se sabe bem ao certo de onde veio, mas é certeza de que está aqui e que vai levar a algum lugar. Se fosse uma folha ao invés do computador, o processo todinho se denunciaria. Idéias pensadas de último minuto estariam encaixadas num cantinho quase inexistente de papel, acentos riscados mostrariam a falta de um corretor ortográfico. Desenhos, buracos provocados por uma caneta furiosa e quem sabe, até lágrimas, provariam que o parto da criança foi doloroso.

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Este parágrafo era uma parte do texto anterior que eu acabei tirando na parte da edição.

Estou sentada na cadeira. A tela branca do monitor me encara, dura. Não sei se consigo vencê-la. Melhor me preparar. Arial, 1,5 de espaçamento. Ok, tudo prontinho. Agora é só começar. Mas começar o quê?

Cada palavra é uma conquista. Sobre o que escrever? Mas qual o jeito certo? Será que essa frase ficou boa? E essa metáfora? É inteligente? Convincente? Ou melhor, talvez comovente? Será que vão entender?

O ato de escrever é natural ao ser humano. É como sexo. Do nada, vem aquela vontade. Aí, a mão entra em um ritmo louco, acompanhando o fluxo rápido do pensamento, que por sua vez acompanha as sensações e os impulsos. Tenho que escrever, escrever, escrever, vai, vai, vai, vai! Aaahhh…

De repente, o ritmo muda. Os movimentos ficam mais lentos, mais preguiçosos… as mãos não se mexem mais como se tivessem vida própria, os pensamentos não escapam mais ao controle. Não adianta forçar, o escritor já gozou. “Foi bom pra você?”. Não sei. Só vou saber mesmo na manhã seguinte, quando estiver tudo às claras. Agora é hora de dar boa noite e dormir.