Eu nunca mais vou ouvir Pixies do mesmo jeito (ou sobre como fazer um show de rock no Lollapalooza)

Crédito: Claudio Augusto / iG

Sem frescura: a banda dispensou cenário e foi direto para o som (Crédito: Claudio Augusto / iG)

São Paulo, domingo, 17h35. Pontualmente, Black Francis, Joey Santiago, David Lovering e Paz Lenchantin, a baixista que substituiu (muito bem) a posição de Kim Deal na banda, entram em cena. Os músicos dispensam qualquer tipo de parafernalha. No palco, há apenas eles e seus instrumentos. Depois de serem ovacionados pelo público por alguns minutos, começam a tocar. E como tocam.

O show abre com um dos clássicos da banda, Bone Machine. E assim segue, sem interrupção, clássico após clássico. Até as músicas novas soam como clássicos. A potência vocal de Black Francis é tão impressionante que é de se pensar como a garganta dele sobreviveu a décadas de urros e gritos desesperados a frente dos vocais do Pixies.

Ao final, agradecem a plateia indo a todos os cantos do palco e sendo aplaudidos por uma audiência ainda desnorteada pela pancada sonora que tinha acabado de receber. Então, um momento de ternura inesperado: todos os integrantes saem do palco mas a baixista, novata, permanece por algum tempo. Talvez por não estar acostumada a eventos desse porte, ficou visivelmente emocionada com a resposta da plateia.

Crédito: Manuela Scarpa/Photo Rio News

A nova baixista visivelmente emocionada com a plateia (Crédito: Manuela Scarpa/Photo Rio News)

A banda dos anos 90 ensinou qualquer novato a fazer um show de rock. Ao chegar e impressionar a todos com um show veloz e potente, com uma pegada punk na atitude, eles mantiveram os fãs ligados até nas músicas novas, e fizeram uma apresentação que mudou para sempre minha forma de ouvir Pixies. Agora, sempre que a música deles tocar, será impressa com a energia de vê-los ao vivo.

Você pode conferir um vídeo da apresentação deles aqui.

10 dicas para um jornalista iniciante

Dias desses estava olhando alguns emails antigos e me deparei com uma pérola que pode ajudar muita gente. Na época em que tinha acabado de me formar em Jornalismo e estava freelando para o jornal Agora SP, o editor do caderno Máquina, Eduardo Hiroshi, uma lenda do automobilismo brasileiro que faleceu no ano passado, me passou algumas dicas para minha recém-inaugurada carreira. Algumas são um pouco óbvias, mas outras trazem insights valiosos de como é a vida na redação.

Hiroshi era um jornalista perfeccionista e exemplar, apaixonado pelo que fazia desde criança. Nessa matéria publicada pela Folha, dá para se ter uma ideia de quem ele era. Segundo ele, eu tinha muito potencial, mas estava perdida. Como essas dicas me ajudaram muito, resolvi compartilhá-las para dar uma luz à quem precisa.

Vamos lá:

1) Todo texto precisa ter começo, meio e fim. Isso, que parece óbvio, nem sempre é seguido e nem respeitado por quem tem pouca experiência.

2) O texto precisa ter um encadeamento lógico de ideias. Não adianta empurrar um milhão de informações goela abaixo de um leitor que terá poucos minutos para ler uma reportagem.

3) Ainda sobre o encadeamento lógico, tente se colocar no lugar do leitor. Tente imaginar se ele vai conseguir entender seu texto de forma linear. Se ele precisar ler alguma coisa dois parágrafos antes para entender, é porque há algo de errado.

4) Todo jornalista precisa ter familiaridade com o tema que ele vai cobrir. Quando não tem, ele precisa estudar ao máximo o assunto, se atualizar, comprar livros, conversar com especialistas.

5) É aconselhável escolher uma área de especialização. Jornalistas generalistas recebem mal e, geralmente, são os que mais pegam matérias furadas que dão complicações depois.

6) Ao pedir para fazer um frila, é aconselhável enviar junto uma sugestão de pauta. Aliás, é bom saber como é a linguagem e o público do veículo de comunicação que você está de olho.

7) Ao produzir e mandar um texto de casa, mantenha contato com a redação e dê retornos sobre o que você já apurou e sobre o que falta. Respeite datas e, se precisar refazer um texto, indique o que mudou ou mande apenas as mudanças e indique onde elas ficam. Pega muito mal mandar várias versões diferentes de um mesmo texto, assim como mandar erratas ao longo do fechamento.

8) Tente encontrar um diferencial no seu trabalho. Estude, leia, aprimore-se. Experimente colocar informações curiosas, sempre correlatas ao tema principal da tua matéria. Participar de um processo seletivo para uma vaga na editoria de cultura e declamar toda a filmografia do Krysztof Kieslóvski ajuda a impressionar. Mas cuidado para não exagerar, para não transmitir a sensação de arrogância.

9) Nunca espere que as coisas caiam do céu. Quando uma pauta parece difícil, faça o impossível para conseguir o que puder e esteja sempre atenta a outros elementos que apareçam no meio da apuração e que possam render outras pautas ou mudar o direcionamento da pauta atual.

10) Nunca procure seu superior hierárquico avisando sobre um problema sem ter uma sugestão de solução na manga.

AA040013

Eu já escrevi minha história nesta cidade

Eu já escrevi minha história nesta cidade.

Vários cantos dela contam a minha vida. Como aquele bar, onde partiram meu coração, e aquele outro, onde conheci um novo amor.

O hospital em que minha tia morreu, que por coincidência fica em frente ao velório onde ficou meu avô, em um tempo que não consigo me lembrar… meu pai que me contou outro dia.

Eu já escrevi minha história nesta cidade.

Andando pela Paulista lembro de diversos momentos… risadas com amigos, com desconhecidos, noites de frio em que jurei que nunca mais passaria a madrugada na rua e outras em que tudo o que eu queria naquele momento era estar ali, na rua, com uma bebida e uma amiga ao lado. O bar em que levei tantos meninos, sempre o mesmo bar. Só não levei ele. Talvez porque ele fosse mais importante, ou, simplesmente, porque nunca tínhamos tempo para nada.

_______________________________

Achei esse texto perdido no meu email, ele é de 2009.

Pequenos vícios

Todos sustentamos pequenos vícios para viver mais facilmente. O futebol de quarta-feira é um vício, encontrar o namorado é um vício, a novelinha de todos os dias é um vício. Fumar é um vício. Beber é um vício. Cheirar cocaína é um vício. Matar também pode ser.

Alexander Pichushkin, o “maníaco do parque” russo, também conhecido como “assassino do tabuleiro de xadrez”, era um funcionário de supermercado regular. Como todos nós, também precisava de pequenos prazeres para tornar sua vida mais fácil, como beber uma vodca, por exemplo.

Em um belo dia, durante uma conversa com seu amigo, surgiu um assunto peculiar, talvez entre um cigarro e outro, uma vodca e outra: matar. Como seria matar alguém? Qual seria a sensação? Vamos ver como é? O amigo negou. Não havia saída. Para matar a curiosidade, Alexander matou o amigo. Foi uma sensação única. “Como o primeiro amor, inesquecível”, disse o russo. Desde então, foram mais de 50 mortes, todas intensamente prazerosas.

Pichushkin provou assim que os vícios realmente têm o poder de destruir vidas.

_________________________________________________________

Para ler mais sobre o assassino do xadrez, clique aqui.

Sobre a rotina

A rotina é um bicho traiçoeiro que aos poucos vai entrando e devorando sua vida. Sua e das pessoas que te circundam. Ela devora os olhos também, pois, uma vez dentro de você, impede que as outras coisas sejam vistas. Tudo conspira para que um dia seja semelhante ao outro, tirando uma ou duas coisas diferentes.

E se você tenta nadar contra a maré, logo é convencido de que não é possível. “Utópico”, dirão os defensores mais ferrenhos deste modo de vida. Aqueles mesmos que dia após dia dizem que precisam mudar de vida, que precisam sair do vermelho, mas não experimentam nada de novo porque estão “poupando” para o amanhã.

Mas que amanhã? A única certeza que se tem é a de que amanhã eles vão levantar e fazer tudo de novo. Até as reclamações serão as mesmas. Assim, eles podem adiar para sempre o dia em que vão mudar de vida.

E não adianta tentar correr; um dia ela chega e te enquadrada. Está tudo bem arquitetado para que você não consiga sair dela. Se você tem tempo, o outro não tem. E assim a vida segue.

Até o novo vai se acomodando à sua forma, como aquele sofá velho. E não adianta lutar: são muitas pessoas jogando no outro time.